SINTOMAS DESORGANIZADOS
(...) (...)
Discurso desorganizado - O diálogo com alguém portador de esquizofrenia pode ser frustrante (...) (...) Um dos motivos é que essas pessoas muitas vezes não têm insight ,a percepção de que têm um problema (...)
O DSM-IV usa a expressão discurso desorganizado para descrever esses problemas de comunicação. Vamos retomar nosso diálogo com David para demonstrar o sintoma.
VMD : Por que você está aqui no hospital, David?
DAVID : Na verdade, não desejo estar aqui. A hora é esta, e, como você sabe, quando surge a oportunidade...
David não respondeu a pergunta que lhe foi feita. Esse tipo de resposta é denominada tangencial e, para alguns autores, é chamada também pensamento paralógico misturando fator heterogêneo, juntando-os ou substituindo-os - isto é, tangencia-se um tema em vez de responder à pergunta específica (Andresen, 1979). David também alterou abruptamente o tópico do diálogo para áreas não relacionadas, comportamento que tem sido designado como associação vaga ou interrupção (Cutting, 1985).
VDM :Fiquei pesaroso ao ouvir que seu tio Bill morreu há alguns anos. Quais os seus sentimentos em relação a ele?
DAVID: Sim, ele morreu. Estava doente e partiu. Ele gosta de pescar comigo no rio. Vai levar-me para caçar. Tenho revólveres. Posso atirar em você; estaria morto em um minuto.
David não respondeu novamente à minha pergunta. Eu não pude dizer se ele não compreendeu o que perguntei, se não conseguiu concentrar sua atenção ou se considerou muito difícil conversar sobre o tio. Pode-se observar por que as pessoas dedicam muito tempo tentando interpretar todos os significados ocultos por trás desse tipo de diálogo. Infelizmente, tais análises ainda não nos proporcionaram informações úteis sobre a natureza da esquizofrenia ou sobre o seu tratamento (...)
Barlow, D. e Durand , V. M. - Psicopatologia - uma abordagem integrada,São Paulo, Cengage Learning, 2008, p 554.
COMENTÁRIO
O tópico intitula-se "Sintomas desorganizados" e mais abaixo, fala em "discurso desorganizado". No entanto, as duas perguntas referem-se aos afetos. Ora, estar trancado num hospital e falar da morte de um tio, como se quer que o discurso esteja organizado? Parece se tratar de uma demonstração factícia, um pacote semiológico pronto à confirmação de um diagnostico. Qual o Contexto? Qual o tipo de relação com o psiquiatra inquiridor? Estará apenas testando o paciente (para inclui-lo no livro em preparo...) ou quer de fato ajudá-lo? A observação final é de um primarismo comovente. Não se sabe se ele crítica as teorias-técnicas do inconsciente "Pode-se observar por que as pessoas { QUE PESSOAS?} dedicam muito tempo tentando interpretar todos os significados ocultos por trás desse tipo de diálogo" ou se ele está a admitir a sua própria ignorância da natureza e do tratamento da esquizofrenia. O certo é que todo o texto é atravessado pela crença (deliróide?) apriorística de que existe a DOENÇA esquizofrenia com todo o seu aparato semiológico bem constituído.
Antonio Moura
Comentário:
ResponderExcluirTítulo: A Leitura do ponto de vista do paciente, e não da psiquiatria.
Não me interessa o psiquiatra, porque não posso esperar nada de diferente dele. Ficaria extremamente surpreso se ele dissesse ou fizesse algo diferente do que fez. Quanto à leitura do espaço sub-representativo, a captação desejante dos signos emitidos pelo paciente – que é o que me interessa –, ele não está satisfeito com a Forma-hospital (isto vai além do Hospital em si); o termo “a hora é esta”, com o seu complemento “oportunidade”, refere-se ao desejo confirmado de buscar uma estratégia para sair dali, de ter uma chance de escapar (escapar à entrevista, ao diagnóstico, ao psiquiatra, ao hospital...); e, por fim, o signo “a morte do tio” é utilizado como um modo de concretização desse desejo, pois os elementos enunciativos “caça” e “pesca” referem-se a um estilo primitivo e primordial do desejar. Disse, certa vez, no blog que acabou, o “Se Você Pensa”, que o desejo é a busca pelo necessário. Caça e pesca são elementos tradutores de necessidades desejantes. Ele busca o desejo. Há desejo. Como o desejo foi tamponado pelo discurso médico-científico, onde o paciente só escutado na medida de conferência dos sintomas, seu corpo se prepara para, simbolicamente, “matar o psiquiatra”, isto é, resistir, quando diz: “tenho revólveres, posso matar você, em um minuto”.